Mas não. Eu não sabia que o Nelo Silva&Cristiana também não tinham canções originais. Para quem não sabe, tratava-se de um duo nos anos 90 composto por pai e filha, cuja temática lírica tinha quase sempre a ver com – pasme-se!... – o ciúme e o amor. E relações terminadas por causa do ciúme e do amor. Eu sempre achei aquilo um bocado esquisito. Com os meus inocentes 8 anos, achava que estes sentimentos só existiam entre namorados ou pessoas que davam beijinhos na boca. No entanto, como gostava de alguns vídeos deles podia superar essa coisa esquisita que me soava a incesto. Lembro-me particularmente do grande clássico “Se vai, se vai, se vai o amor”, que era filmado num barco em que a Cristiana ia com um vestido foleiro cor-de-rosa, parecido com os fatos de carnaval das meninas que que se mascaravam de Dama Antiga. Outro hit que me fascinava era o “Diz-me diante dela”, porque era uma coisa ultra dinâmica a vozes, que podia reproduzir em canône com alguém que se dispusesse a fazer de Nelo.
Os anos passaram e comecei a gostar de outras coisas. O Nelo Silva e a sua Cristiana foram ficando relegados apenas para ocasiões especiais, como festas de passagem de ano no Minho. Mas há cerca de duas semanas alguém me relembrou, da pior forma, que eles existiam. Umas amigas d’A Espanha começaram a cantarolar algo que me era familiar, mas em castelhano. A minha voz de indignação levantou-se em defesa da autoria portuguesa da música. Mas não. Elas fizeram-me ver que o inolvidável “Sombras de Amor” não era um original. Quis chorar. Mas antes, fui investigar em que circunstâncias foi filmada a música. Afinal, eram os videoclips que me ligavam a este dueto.
Ora bem: em 1994, Nelo Silva&Cristiana decidem gravar esta música num lugar estranho e escuro, possivelmente num prostíbulo no Cacém. Cristiana não desilude: os enchumaços noventeiros não faltam, bem como o chapéu preto de veludo. Nelo surge vestido de branco num fade possivelmente inspirado na senhora loira dos Abba em “Knowing me, knowing you”.
Pelo meio aparece uma senhora num BMW que não se sabe muito bem quem é. Talvez seja com quem o Nelo traiu a Cristiana. Ou então é só uma empregada do prostíbulo a caminho do trabalho. No minuto 2:32 apercebemo-nos através de um painel igual àqueles dos talhos que afinal aquele lugar esquisito não é no Cacém, mas sim no Porto.
Mas no final, e ouvindo a música passados muitos anos, podemos tirar conclusões: tratar o antigo amor por “você” sem ser com sotaque da Linha não é normal. Usar expressões como “faz tanto tempo que ele não liga p’ra mim” só pode significar uma coisa: a música tem, realmente, que ser uma tradução foleira. E assim, pedindo desculpa pela indignação às amigas que me fizeram descobrir esta triste verdade, descobri os Pimpinela.
Percebi aqui o significado das expressões quase incompreensíveis que a Cristiana cantava. Percebi também que a senhora Pimpinela tem mais estilo: preferiu adoptar um modelito colorido de folhos, ao invés do cetim da cópia. Ao mesmo tempo, encara o drama de forma tranquila. Espera pelo seu antigo homem num jardim tropical para esclarecer bem as coisas, em vez de o arrastar para uma casa de alterne.
De qualquer das formas, está mal. A desilusão é grande. Por um lado, porque se destrói a mística deste standard do pimba português. Por outro, porque se confirma mais uma vez que nem a copiar somos bons.
Tuesday, May 5, 2009
Eu pensava que já sabia tudo.
Posted by Macarena Jiménez at 11:51 PM